Pintinho

  • Escrito por Francisco Dandão

Craque do meio campo que um dia recusou fazer parte do "carrossel atleticano"

Pintinho aos 62 anos - Foto/Francisco DandãoPintinho aos 62 anos - Foto/Francisco DandãoConvertido há 22 anos aos preceitos da Igreja Assembleia de Deus, praticamente nada lembra no perfil do cidadão Raimundo Menezes Pinto de Souza a figura do jogador Pintinho, um então rebelde sem causa que, nas décadas de 1970 e primeira metade de 1980, desfilou nos gramados acreanos com as camisas de três times: Amapá, Atlético e Rio Branco.

Nascido em 26 de julho de 1954, já na adolescência Pintinho (diminutivo do sobrenome) começou a "gastar a bola" nos juvenis do Atlético Acreano. Morador do Bairro 15, onde se situa o estádio Armando Jobim, era natural que o caminho do garoto habilidoso o conduzisse para vestir as cores (branco e azul) do time conduzido pela família Diógenes.

Quando "estourou" a idade para jogar no juvenil, sem vaga para atuar no time principal, que na época preferia atletas oriundos de outros estados, Pintinho foi defender o Amapá, clube considerado pequeno no cenário esportivo local. "Fui para o Amapá convidado pelo dirigente Osmar e pelo Toniquim. Era muito bom jogar naquele time", disse o ex-craque.

As boas atuações pelo Amapá, numa equipe que alinhava bons jogadores do futebol acreano (casos, entre outros, de Azeitona, Nonato, Tavares, Buda, Maguim, Chicana, Regino, Bira, Zé da Gorda etc.), o levaram novamente ao Atlético, em 1979. "Prestes a completar 25 anos, eu voltei para o terreiro do Galo. O time só tinha feras", garantiu Pintinho.

Arroz com ovo e o carrossel do Galo

Foram duas boas temporadas no Atlético. Até que no primeiro semestre de 1981 surgiu um impasse. É que o novo treinador do Galo, Ariosto Miguéis, entendeu de implantar um sistema de jogo onde todos os atletas deveriam se manter em constante movimento, sem posição fixa. Mais ou menos da maneira como jogava a seleção da Holanda, em 1974.

O novo sistema de jogo foi batizado pelo próprio Ariosto de Carrossel Atleticano. A ideia era muito boa. Se o time conseguisse executar, na prática, o que o treinador propunha na teoria, seria praticamente imbatível. Para que o sistema pudesse funcionar, porém, era necessário que os jogadores ostentassem uma condição física excepcional.

Foi aí que o Pintinho pediu as contas do Atlético. "Eu cheguei para o Ariosto e disse que aquilo era impraticável, que ninguém aguentaria correr tanto. Principalmente debaixo de um sol doido como o do Acre. E ainda mais com a alimentação da gente sendo na base do arroz com ovo. O Ariosto não quis ouvir. Aí eu tirei a camisa e fui embora", afirmou ele.

A saída do Atlético abriu as portas do Rio Branco para o Pintinho, a essa altura já um jogador polivalente que atuava com desenvoltura tanto como atacante quanto em todas as posições do meio de campo. Novamente o Toniquim foi quem o ajudou a trocar de camisas. "Ele me conhecia do tempo do Amapá e me convidou para defender o Estrelão", explicou.

Vaga num time cheio de craques

"O Rio Branco de 1981 era um time só de craques. No meio de campo, onde eu jogava, só tinha gente de ótima qualidade. Richard, Dadão, Mário Sales, Carioca... Com a minha chegada, eram cinco nomes para três vagas. Mas eu não afrouxei. O treinador era o Ticão, um cara que veio do Paraná e que acabou arranjando um lugarzinho pra mim", disse Pintinho.

O ex-craque conta que a sua estreia foi justamente contra o Carrossel Atleticano, onde ele não havia se adaptado. "Rapaz, nós ganhamos por dois a zero. O meio de campo foi formado por mim, o Richard e o Carioca. O Mário Sales estava contundido e o Dadão tinha sido expulso no jogo anterior. Só deu nós. Um toque-toque medonho", falou gargalhando.

A estada no Rio Branco durou apenas um ano. Em 1982, Pintinho voltou para o Atlético, para disputar mais duas temporadas. Daí, no ano seguinte, 1984, ele foi tentar a sorte no Juventus, convidado pelo também jogador Manoelzinho. "Treinei muito bem, mas teve uns caras lá que me vetaram, afirmando que eu era uma maçã podre", contou o ex-craque.

O Atlético novamente o acolheu, mas por pouco tempo. Consciente que a vida era mais do que uma curtição e que a bola um dia ia acabar, ele tratou de conseguir um emprego, ao tempo em que se converteu à religião. "O curioso é que quem me arranjou o emprego foi justamente o Ariosto, com quem eu tinha brigado no tempo do Carrossel", finalizou Pintinho.

Amapá - 1975. Em pé, da esquerda para a direita: Zé da Gorda, Toniquim, Azeitona, Buda, Lúcio, Ronaldo e João. Agachados: Regino, Maguim, Bira, Tavares, Chicana e Pintinho - Foto/Acervo Antônio Aquino LopesAmapá - 1975. Em pé, da esquerda para a direita: Zé da Gorda, Toniquim, Azeitona, Buda, Lúcio, Ronaldo e João. Agachados: Regino, Maguim, Bira, Tavares, Chicana e Pintinho - Foto/Acervo Antônio Aquino Lopes

Atlético Acreano - 1979. Em pé, da esquerda para a direita: Tidal, Pintão, Lécio, Tadeu, Jaime e Armando. Agachados: Pintinho, Paulinho Pontes, Manoelzinho, Pitu e Dodô - Foto/Acervo ManoelzinhoAtlético Acreano - 1979. Em pé, da esquerda para a direita: Tidal, Pintão, Lécio, Tadeu, Jaime e Armando. Agachados: Pintinho, Paulinho Pontes, Manoelzinho, Pitu e Dodô - Foto/Acervo Manoelzinho

Atlético Acreano - 1980. Em pé, da esquerda para a direita: Targino, Ilzomar, Jaime, Gilmar, Lécio e Bento. Agachados: Paulinho Pontes, Adriano, Nirval, Pintinho e Raimundinho - Foto/Acervo Ilzomar PontesAtlético Acreano - 1980. Em pé, da esquerda para a direita: Targino, Ilzomar, Jaime, Gilmar, Lécio e Bento. Agachados: Paulinho Pontes, Adriano, Nirval, Pintinho e Raimundinho - Foto/Acervo Ilzomar Pontes

Rio Branco - 1981. Em pé, da esquerda para a direita: Illimani, Tonho, Zenon, Eco, Richard e Chicão. Agachados: Roberto Ferraz, Magid, Leco, Pintinho e Carioca - Foto/Acervo FFACRio Branco - 1981. Em pé, da esquerda para a direita: Illimani, Tonho, Zenon, Eco, Richard e Chicão. Agachados: Roberto Ferraz, Magid, Leco, Pintinho e Carioca - Foto/Acervo FFAC

Tidal, Pintinho, Pitu e Paulinho Pontes, no Atlético de 1979 - Foto/Acervo FFACTidal, Pintinho, Pitu e Paulinho Pontes, no Atlético de 1979 - Foto/Acervo FFAC   Pintinho concede entrevista ao radialista Raimundo Fernandes, no último ano da década de 1970 - Foto/Acervo FFACPintinho concede entrevista ao radialista Raimundo Fernandes, no último ano da década de 1970 - Foto/Acervo FFAC   Pintinho com a camisa do Rio Branco, em 1981 - Foto/Acervo FFACPintinho com a camisa do Rio Branco, em 1981 - Foto/Acervo FFAC

(Texto publicado originalmente em Futebol Acreano em Revista – Edição nº 6 – Dezembro de 2016)